50Y50K

No fim do Verão de 2019, apesar de ser ativo e praticar desporto quase cinco vezes por semana, dei por mim com 84 quilos, talvez o mais pesado que tinha estado nos últimos cinco anos. Pensei que tinha de baixar de peso e em novembro tornei-me vegetariano. As perguntas surgiram imediatamente dos meus amigos. O que vais comer? Não te vai fazer falta a proteína animal? Porque estás a fazer isto? Confesso que esta era uma decisão que tinha vindo a ser pensada há pelo menos uns dez anos. Melhorar e diversificar a minha alimentação deixando a carne e o peixe. As razões prendiam-se com a minha saúde, mas também com uma consciência ambiental e um reconhecimento que existe um forte desafio para a sociedade no que à alimentação diz respeito, já para não falar dessa pandemia silenciosa e de longe a mais mortal de sempre na história da Humanidade que dá pelo nome de obesidade. Depois de tomada a decisão marquei uma consulta numa nutricionista ligada à alimentação vegetariana e vegana para perceber se o regime que tinha adotado estava ajustado e sobretudo se não estava a cometer nenhum erro que pudesse significar consequências na minha saúde no futuro. O resultado foi que estava a fazer tudo certo e com pequenos ajustes poderia tirar ainda mais proveito da minha nova dieta vegetariana. Em dezembro o meu peso estava nos 80 quilos e sentia-me muito melhor. Os meus níveis de energia física e mental melhoraram em pelo menos 25%.

Entrou 2020 e a pandemia. Não parei. Mantive-me ativo quando fecharam o surf, sobretudo andando de bicicleta 16 a 20 km dia sim dia não e comecei a fazer yoga todos os dias, o que contribuiu em muito para um aumento de flexibilidade e bem-estar físico e mental.

No fim de agosto de 2020 o meu peso mantinha-se nos 80 quilos. Daí a seis meses faria 50 anos e decidi em setembro lançar-me ao maior desafio físico até então. Correr 50km no dia do meu aniversário, 4 de março de 2021.

Tive a sorte de, pela minha casa na zona do Zêzere, ter passado no verão, um amigo que vinha a descer a Grande Rota do Zêzere de bicicleta com quem partilhei algumas ideias acerca deste desafio. Este meu amigo, Gonçalo Torres é um corredor de Ultra Trail com várias corridas acima dos 100 km feitas e muita experiência em treino. Em setembro desafiei-o para me ajudar a alcançar o meu objetivo. Do meu lado trazia como bagagem duas maratonas e algumas meias maratonas e o facto de correr com regularidade desde 2011 (umas vezes com mais outras com menos). A 7 de setembro começamos os nossos treinos três vezes por semana ao fim do dia em Monsanto, a floresta ao lado de minha casa em Lisboa. Os dias foram ficando mais curtos e a chuva originou lama e nós continuamos a treinar. Sem nunca perder o propósito fazer 50 km a correr no dia 4 de março forcei-me em alguns dias a ir treinar com chuva intensa. Fui alternando os treinos de corrida com treinos de bicicleta, acumulando km nos espaços vazios dos meus dias cheios. “Treina duro para teres uma prova fácil” é uma frase que ouvi muitas vezes ao longo da minha vida e ultimamente nos treinos de jiu-jitsu. Foi o que fiz durante seis meses mantive o meu plano de treino. Foram cerca 1.000 km, entre corrida e bicicleta.

Ditou também a pandemia que a Associação Surf Social Wave o projeto social ao qual me dedico, tenha perdido em 2020 cerca de 60% das suas receitas e apesar de 2021 ter começado bem, um novo confinamento levou-nos de novo para o zero. Tínhamos de fazer alguma coisa. Decidimos então que podíamos associar a corrida de março a uma angariação de fundos e tentar dessa forma ajudar a Associação a realizar a sua missão.

A pressão que veio com essa decisão aumentou sobretudo porque já não era o António a celebrar os seus 50 anos ao correr 50 km apenas visível para o amigos e família, mas uma corrida solidária, visível para todos. Durante alguns dias refleti sobre isto e sobretudo sobre onde me tinha metido. Havia por esta altura um misto de vontade de fazer e medo de falhar. O desafio que lançamos foi de cada pessoa fazer uma doação por cada quilómetro que eu conseguisse fazer.

Inicialmente tinha pensado fazer a corrida pelas ciclovias de Lisboa, mas depois de um treino de 21km em janeiro percebi que os meus joelhos e ancas não aguentariam a pressão do asfalto e assim virei-me para o meu playground favorito depois do Oceano o Parque Florestal de Monsanto. Comecei a desenhar percursos. Foram pelo menos cinco tentativas em numa plataforma digital e umas dez mentais. Apesar de considerarmos que Monsanto é grande, na realidade isso não é verdade. Uma volta pelas bordas da floresta dá uns 20 a 22km no máximo. Estudei o desnível positivo e outros fatores fundamentais para realizar esta missão. Fiz várias voltas de bicicleta de reconhecimento e duas semanas antes um teste a correr pelo percurso. Depois deste último e sempre aconselhado pelo meu treinador, decidi que iria fazer duas voltas de mais ou menos 20km seguida de uma de 10km. Sempre em pistas, passando por alguns trilhos suaves. O chão mole da terra e da lama compensava largamente os 1.500 metros de desnível positivo.

Por esta altura ajustei o meu corpo a acordar cedo 06:30h e ir correr logo de manhã. Considerei que adaptar-me ao horário era fundamental para que no dia tudo corresse bem.

Na semana anterior com o meu treinador defini a estratégia para a corrida, um pace entre os 7/8 minutos por quilometro, correr 10 km andar 1km. Utilizar as subidas para andar, comer e beber. Entretanto com a comunicação foram juntando-se pessoas à corrida, pessoas que queriam correr uns quilómetros e outras que vinham para o caminho todo.

No dia 4 de março acordei como sempre às 06:30, sabendo que tinha de terminar a corrida, mas com aquele nervoso miudinho de quem vai enfrentar o desconhecido. Olhei para as inscrições para a corrida e para aqueles que apenas queriam fazer um donativo e somavam 50 pessoas, no dia que fazia 50 anos e ia correr 50 km. Era um bom presságio pensei. Segui a minha rotina matinal com calma e desci para a rua. Eram 07:50h.

À minha espera estava a Ana, amiga, colaboradora que tinha começado a correr há pouco tempo, mas se tinha proposto a correr os primeiros 10km comigo. Estava também o Gonçalo Melo, meu amigo de longa data e corredor exímio de ultras e o meu treinador Gonçalo Torres, pronto para fazer os primeiros 30km. A essa hora já o Hugo e a Cristina tinham corrido 10km. E outros amigos iam começar o seu desafio nos locais onde correm habitualmente. Eram 27 pessoas espalhadas pelo país.

Começamos pelas 08:10 devagar a subir a ponte junto ao Califa que nos leva diretamente para Monsanto. Era um misto de alegria, apreensão e responsabilidade que estava a sentir. Naturalmente acabamos por correr mais rápido do que o previsto, mas rapidamente acertamos o nosso ritmo. Quando estávamos a chegar ao Parque do Calhau a minha mochila começou a verter água e pensei que tinha já ali o primeiro desafio. Felizmente foi só a tampa mal enroscada e em menos de dois minutos estava resolvido. Enfim mais ou menos porque acabei por ficar com as costas todas molhadas. Mas sentia-me bem. Os dois corredores mais experientes foram marcando o ritmo sempre olhando para trás onde eu e a Ana seguíamos a um ritmo ligeiramente mais lento.

Passado uns quilómetros a Ana deixou-nos e seguimos em direção ao outro lado de Monsanto. Quando o relógio marcou 10.510 metros a primeira verdadeira subida. Andamos e comemos e bebemos durante 600 metros e depois continuamos a correr. Era a primeira volta e tinha adotado uma estratégia que pretendia manter. Sabia que era uma ultramaratona e por isso não havia pressa.

Quando chegamos à faculdade de Arquitetura o Ricardo juntou-se a nós, tinha-nos vindo a seguir no live tracking e por pouco não nos apanhou antes dos Montes Claros. Vinha com um ritmo bom e superior ao que íamos, mas rapidamente se ajustou ao nosso, até porque Monsanto é também um desafio para quem habitualmente corre em plano, obriga a ajustar o ritmo de acordo com as subidas e descidas e os desafios do terreno. Fomos conversando pelo caminho até chegarmos à Cruz das Oliveiras. Onde o Ricardo tinha deixado o carro e nos deixou depois de quase 9 km a correr. Começamos então a descida pela estrada do panorâmico de Monsanto com o Garmin a marcar 18km. Sentia-me bem, com um bom ritmo e em boa companhia. Abrandamos um pouco para comer na única subida desta longa descida. Passado uns minutos com 20 e poucos km estávamos a terminar a 1ª volta grande.

Seguimos em direção ao Parque dos Índios para segunda volta quando atrás de nós ainda de carro surgiu o Miguel Arrobas que tinha andado às voltas à nossa procura. Estacionou um pouco à frente e apanhou-nos no primeiro abastecimento feito pela Beatriz o amor da minha vida que tirou o dia para me apoiar nesta aventura, dentro da carrinha tinha deixado uma muda de roupa e por esta altura estava ensopado da água que me tinha caído pelas costas e de suor. Decidi trocar-me e depois de me sentir mais seco e confortável arrancamos para a segunda volta. Desta vez com a companhia do Gonçalo Melo, do Gonçalo Torres e do Miguel Arrobas que vinha cheio de energia como sempre, mas teve a delicadeza de me acompanhar a um ritmo lento. Bom, pensei dois corredores de ultras e um nadador de águas abertas, também de ultras. Para quem não conhece o Miguel, as façanhas dele desde que foi nadador olímpico passam por coisas como: nadar à volta da ilha de Manhattan, ou entre a Madeira e o Porto Santo, coisas com mais de 40km e às vezes mais de 50km a nadar. Disse-me que se estava a preparar para mais um desafio em breve e com as piscinas fechadas devido à pandemia correr era a sua melhor opção. Quando passamos pela segunda vez no antigo clube de tiro de Monsanto na estrada do Barcal decorria o conselho de ministros com o presidente da república dedicado à floresta e por isso o aparato policial era visível. Os policias surpreendidos por nos verem a passar outras vez por eles acabaram por nos dar uma força quando lhes disse que íamos já no quilómetro 24.

Uns quilómetros mais à frente o Gonçalo Torres seguiu em direção a casa e eu e o Miguel e o Gonçalo Melo atacamos uma vez mais o caminho que nos havia de levar até ao Clube de Ténis de Monsanto. Eu ia olhando para o Garmin à espera do quilometro 30. O tal onde encontramos uma parede, explicada fisiologicamente porque, diz-se que é o momento em que esgotamos a nossa energia acumulada e o nosso cérebro começa a dizer-nos para parar. No parque de estacionamento do clube de ténis estava outra vez a Beatriz desta vez com a Ana, que vinha fazer a reportagem desta aventura. Foi um momento de felicidade. Paramos talvez uns 3 minutos. Comemos, bebemos. Sentei-me e pensei que me sentia bem.

Continuamos e passamos o quilometro 30 sem problema depois o 35. Estava bem, pensei. Dorido, cansado, mas bem. E melhor que tudo não chovia. Ao longo da semana a previsão era chuva intensa a partir de manhã e eram quase uma da tarde e não chovia.

Quando acabamos mais uma volta o Miguel deixou-nos e eu e o Gonçalo seguimos caminho. Faltavam 10km. A volta que tinha programado tinha cerca de 8km e percebi longo aí que teria de ser um pouco mais longa.

Começava a sentir-me fraco porque a única coisa que não tinha testado, por pura inexperiência tinha sido a alimentação. Com quase 7.500 quilocalorias gastas não estava a ingerir o necessário para continuar. Faltava-me sal e vontade de comer. O Gonçalo Melo, deu-me uma saqueta com um liquido que sabia a mar e teve um o efeito foi milagroso. Senti-me imediatamente melhor. Seguimos para os últimos 10km. Sabia que no outro lado do percurso interior que tinha previsto estaria a Paula e a Marta. A Paula é minha amiga e a minha parceira de corrida mais antiga e regular, nos últimos anos corremos juntos praticamente duas vezes por semana. Na minha última maratona foi ela que me “empurrou” até ao fim. E por isso contar com ela neste trecho final da corrida foi como ter uma energia renovada ao fim de 46 km. A Marta amiga da Paula e parceira em alguns dos últimos treinos foi igualmente uma força motivadora.

Decidimos seguir um caminho mais longo até à meta imaginária dos 50km, passamos por um trilho novo, dei um valente pontapé numa pedra que quase me levou a cair, mas aguentei-me. Por esta altura doíam-me os pés mais do que tudo o resto. Mas estávamos a acabar, não tinha tido caibras e só agora começava a chover ligeiramente.

Passado uns minutos estávamos a chegar faltavam 400 metros, 200 metros, 100 metros. Descemos a ponte de volta ao ponto de partida. 50 metros, tivemos de dar uma última volta ao relvado onde em miúdo jogávamos à bola 50km. Estava feito.

A Beatriz lá estava na chegada para me receber de volta. Estava perto de casa e segui devagar a pé até à porta de casa. Começou por essa altura a chover a sério uns minutos depois.

Enquanto a Beatriz foi deixar a Ana de volta ao escritório e estacionar a carrinha fiquei sentado na porta do meu prédio a refletir sobre esta aventura incrível que só foi possível porque todos se envolveram.

Começando pela Beatriz que me deixa espaço para perseguir os desafios a que me proponho dando-me sempre o seu apoio. Mas também porque o Gonçalo Torres me orientou e incentivou desde o início e me acompanhou mais de metade da corrida, porque a Paula e a Marta me fizeram companhia aos fins de semana. Porque a Ana e a Sara minhas amigas e parceiras de trabalho me permitiram e ajudaram a treinar e ambas correram nesse dia, a Ana os primeiros 10km e a Sara na sua zona de residencia antes de vir para o escritório logo de manhã. Porque o Filipe meu filho mais velho partilhou comigo a maior parte das voltas de bicicleta sempre a puxar nas subidas fosse nas ciclovias de cidade ou nos trilhos de Monsanto e a Rita minha filha esteve sempre pronta para puxar por mim quando chegava a casa cheio de lama e encharcado, nunca me faltou um abraço e um sorriso. Devo também ao Miguel Cunha amigo do Gonçalo Torres também ele corredor de ultras que me foi dando dicas fundamentais ao longo dos treinos que fizemos juntos. E ao Ricardo e ao Miguel Arrobas que tiraram uma manhã à sua semana de trabalho para me acompanharem. Mas sobretudo a todos os que decidiram fazer a diferença e juntar-se com distanciamento a esta corrida. E por fim o Gonçalo Melo que me acompanhou todo o percurso garantindo que eu não fugia da minha estratégia da corrida e sempre pronto para apertar comigo quando era necessário.

Trago do dia de aniversário dos 50 anos a alma cheia e a sensação de ter cumprido, uma vez mais, aquilo a que me propus. Agora venha o próximo desafio.

4 de março 2021

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store