A noite é sempre o pior momento. O escuro, a incerteza, a ausência do som dos meios aéreos. O medo de que algo se pegue à minha casa, à casa do vizinho que está só a 100 metros daqui. A falta de informação e a descoordenação de quem não conhece a geografia local e se move em bando. E nos salva in-extremis, quando por vezes nos podia salvar com calma.

Este ano os incêndios invadiram o meu paraíso isolado. Entraram vindos da floresta não tratada, não cuidada, sem corta-fogos e vieram sem aviso e sem licença pelas quintas adentro. Viveram-se momentos de pânico de raiva e de heroísmo. Há pelo menos cinco heróis para cada bombeiro, há pessoas de chinelos, ténis e balde na mão que enfrentam chamas com mais de cinco metros, que ficam com os lábios gretados da proximidade do calor. Pessoas que só querem que acabe, que vêm e ajudam o vizinho, que imploram aos bombeiros que venham para ali. Que desenrolam mangueiras e ajudam como podem. De calções e chinelos. Pessoas que nunca ganharam dinheiro com as árvores, mas querem salvaguardar as suas casas e os seus animais e as suas árvores de fruta e as suas hortas. Pessoas que comem do que cultivam.

Sei que de incêndios devemos falar no Inverno e de cheias no Verão. Devemos, ou devíamos preparar-nos para o futuro, não reagir no presente, mas infelizmente vivemos num momento de reação, que nos é ensinado pelo status quo — parece que não temos tempo a não ser para reagir.

Parece que o problema dos incêndios é uma má solução de comunicações e não a falta de planeamento das florestas, a inexistência de corta-fogos, a falta de regras ou a falta de fiscalização das mesmas. Aqui, no meu paraíso não podemos falar de abandono. O que ardeu de floresta foi plantado há poucos anos e há quem viva destas árvores. Há quem não limpe, apesar de lucrar.

A noite é mesmo assustadora…

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.