Em 2001 estava no primeiro escritório da Alfarroba com uma linha telefónica e um modem 52K o sonho de levar mais longe o Surf em Portugal e fazer eventos de qualidade que servissem de uma forma positiva todos os seus intervenientes. Ainda nesse ano a convite do José Calheiros reuni uma equipa e tratei da produção do O’Neill Yorn Pro um WQS 6 estrelas, correspondente ao que hoje é um QS 10.000, foi o primeiro passo de uma caminhada longa. Nele esteve o Nuno Barroca como chefe de operações. Deste evento surgiu num jantar de amigos aquele que foi o cliente que impulsionou definitivamente a Alfarroba e também aquele que foi até hoje o cliente que mais me fez crescer. O Dinis Duarte, na altura na Matutano, desafiou-me para levar a cabo uma ação de sampling de Doritos que durou um ano inteiro e percorreu o país de norte a sul. O Dinis não ficou contente com a proposta simples de valores e locais, levou-me a descobrir onde estava o target, quantos eram, quantas amostras conseguíamos entregar em cada local. E isto com um modem 52k.

Depois veio o convite para fazer uma proposta para reactivar o Campeonato Nacional de Surf. O desafio veio do José Calheiros que comigo montou a proposta para os patrocinadores sob o lema de unir o surf nacional. As marcas de surf entraram neste projeto connosco e a elas devemos o impulso inicial fundamental para colocar o surf no seu caminho. Ao Jorge Feist, ao Paulo Martins, ao José Farinha o meu profundo agradecimento por acreditarem sempre que o surf merecia o investimento. O caminho de 2002 em diante foi intenso e ascendente e a ele também se deve o esforço e dedicação da FPS nas pessoas do Tiago Matos, Rui Felix e Guilherme Bastos mas também da ANS nas pessoas do João Capucho, Nuno Telmo e David Raimundo. A comunidade do surf acordou para o futuro. Os media voltaram a olhar para o surf e os patrocinadores fora do surf voltaram. Entre eles tenho de destacar sem duvida nenhuma a Buondi, a Nokia, a Fiat, a Compal, e uns anos mais tarde a TMN agora Meo. Sem eles tínhamos ficado pelo caminho.

Para além disto fomos crescendo em ações para clientes e parceiros, sendo que em 2005, quatro anos depois de começarmos fizemos o nosso maior evento de sempre, aliás os dois maiores. O WQS 5 Estrelas Buondi Billabong Pro, ganho pelo Tiago Saca Pires em frente a uma multidão de mais 10.000 pessoas em Ribeira d’Ilhas num daqueles que porventura foi o dia mais difícil que tive enquanto organizador de um evento de surf. Quando chegamos à praia nesse dia estava flat. Era o ultimo dia do período do evento. Vinha um swell a caminho. Estavam 16 competidores em prova. A pressão era enorme. Propus que o evento fosse prolongado mais um dia, mas esta solução não foi aceite pelos competidores. Tínhamos chegado à situação limite. Pela regra votavam o diretor de prova, eu, o chefe de Juízes Thierry Vidal e o representante dos atletas, Bobby Martinez. A votação foi favorável e decidimos avançar com a prova com 30 cm de ondas a rebentar numa maré a encher em Ribeira d’Ilhas.

Os atletas estoicamente foram tentando espremer ao longo do dia as ondinhas que iam entrando e o Tiago sempre a passar heats. Com a maré cheia mudamos para a pontinha que nos oferecia um meio metro glass. E o Tiago sempre a passar os heats. A praia cada vez mais cheia. As arribas por cima da pontinha impossíveis. Com a maré a vazar e o swell a chegar Ribeira entregou um fim de tarde épico. O Tiago empolgado pela multidão que se juntou na praia foi passando até á final e venceu. Venceu de uma forma incrível. A multidão ao rubro e eu sem palavras. Entregamos os prémios e ficou de noite, o dia tinha acabado de nos entregar o que precisamos. Fiquei agradecido. O Tiago era o campeão. Foi um dos momentos mais marcantes que tive enquanto organizador de eventos de surf.

Em novembro e depois de muitos meses de preparação fizemos a produção de um evento para o Patriarcado de Lisboa que implicou mexer com a cidade de Lisboa, transformar o mosteiro dos Jerónimos num centro de congressos, construir um centro de exposições na Praça da Figueira, um palco para concertos no Rossio, uma igreja na Gare do Oriente e terminou com uma procissão de meio milhão de pessoas nas ruas de Lisboa — a maior manifestação civil pós-25 de abril .Foi incrível fazer parte deste evento.

Os anos foram-se seguindo uns aos outros e em 2007 esgotados de um esforço muito grande para levar o surf mais longe decidimos deixar de fazer o Campeonato Nacional de Surf. Foi talvez uma das decisões mais difíceis que tomamos. Mas estávamos conscientes que tínhamos dado o que podíamos e elevado largamente a fasquia. Saímos com a noção de dever cumprido, sem comprometer os nossos princípios e prontos para continuar noutras áreas ligadas ao surf.

Em 2008 criamos a primeira e única até hoje revista de surf gratuita — FREE SURF Magazine — queríamos passar o surf para mais pessoas. Queríamos também chegar junto aos outros surfistas, aqueles que gostam de surfar, mas vivem em torno de outras coisas que não o surf. A aceitação do publico foi incrível. Pediam-nos cada vez mais revistas de todos os locais onde passávamos.

Algumas marcas de surf entraram connosco nesta aventura. Aprendemos muito. Muito mesmo. Dois anos depois com o encolhimento do mercado publicitário fizemos a ultima edição conscientes que tínhamos uma vez mais acrescentado valor ao surf.

Paramos com o surf.

Quer dizer não paramos. Continuamos com a nossa escola de surf e a fazer ativações de marca nos eventos de surf. Mas o mundo do surf não nos queria mais…Infelizmente ninguém quis tirar proveito da nossa aprendizagem de uma forma limpa, vieram os abutres. Aqueles que trabalham connosco saem a chorar do nosso escritório e a seguir roubam os clientes. Aprendi desde cedo que os atos ficam com quem os pratica e houve muitos que não ficaram connosco.

O nosso negócio foi encolhendo com o passar dos anos. Fomos acertando contas com todos a quem devíamos e pagando caro os nossos erros de gestão. Caro demais.

Em 2013 decidimos voltar à organização de eventos de surf. Com uma visão diferente daquela que tínhamos 10 anos antes. O momento era de procurar raízes, encontrar no surf a felicidade de apanhar ondas com os amigos, de rir dos drop-ins e dos baldos. Era outro tempo.

Criamos o Surfamily, o primeiro evento pensado para as famílias do surf, para o avô, o filho, o neto, a mãe a irmã e os primos. Queríamos juntar todos no que nos une.

Conseguimos durante dois anos. Sempre conscientes que não queríamos um grande evento, queríamos um evento com qualidade. No segundo ano decidimos fazer um campeonato de Bodysurf, de carreirinhas. Apareceram 32 atletas convencidos que que cada um era o único em Portugal a fazer Bodysurf. Foi incrível o ambiente que se viveu. Foi demais perceber que no século XXI ainda havia surf puro, sem tretas, sem pressões, com sorrisos e alegrias.

Nesse ano ainda propus à Federação Portuguesa de Surf fazer, no ano seguinte um Campeonato Nacional de Bodysurf. O Artur Ferreira e o João Aranha confiaram em mim e fechamos um acordo. 2015 foi mágico. 36 atletas em média por etapa em 4 etapas. 2016 esgotamos todas as etapas com um máximo de 40 atletas e apanhamos ondas à séria. Temos dois campeões nacionais diferentes. Em 2015 António Stott, um atleta que gosta de ondas grandes deu cartas e sagrou-se na ultima etapa campeão nacional e em 2016 Miguel Rocha, a quem tinha sido diagnosticada esclerose múltipla sagrou-se campeão com um nível nunca visto em Portugal. Andamos em frente e bem.

A nossa escola de surf ASA foi sendo o nosso pilar, todos os anos proporcionamos aos nossos alunos experiências que superavam as suas expetativas. Esse foi desde sempre o nosso lema. Crianças que começaram connosco a aprender o deslize nas ondas, tornaram-se em jovens adultos responsáveis, alguns ficaram connosco e tiraram o curso de treinador de surf para fazer ainda mais parte de nós.

No Verão de 2016 a maior parte dos nossos colaboradores tinham sido nossos alunos de surf. Isso foi incrível. Mas não só. Nos últimos anos os nossos alunos adultos mudaram a nossa vida e às vezes o nosso rumo e nós de uma forma simples tentamos retribuir. O mar uniu-nos. Mais de 15.000 alunos em 13 anos. Foi bom!!!

A meio de 2016 sabíamos que estava a acabar o sonho. Era o momento de seguir caminho. A sensação de termos feito o que queríamos, quando queríamos e como queríamos é muito boa. Como é a de que contribuímos para o crescimento do Surf em Portugal.

Há muitos nomes que me passam pela cabeça neste momento e quero agradecer a todos, mas tenho de destacar alguns. O primeiro é sem dúvida a Beatriz, o amor da minha vida, a minha sócia, a mãe dos meus filhos. Sem ela eu não existia. Depois os meus filhos que nasceram no meio do surf e se tornaram surfistas, bodysurfers, pessoas do mar, o Filipe e a Rita são sem duvida o meu maior feito. Mas não só. O meu pai que foi sempre uma referência para mim e que morreu estupidamente. A minha mãe que me alimentou o espirito critico e a vontade sempre de aprender mais, que desapareceu enquanto eu apanhava umas ondas e que mudou para sempre a minha maneira de olhar para o mundo. O meu sogro António Chaves e a minha sogra Valentina que são os meus pais hoje e a quem devo muito. Os meus amigos Pedro Amaral, parceiro de surf desde dos 15 anos e o Rui Pedro que me abriram muitos caminhos com as conversas que fomos tendo entre surfadas, viagens e ondas e os meus irmãos Rui e Carmo que em momentos diferentes também fizeram parte desta aventura ajudando a construir eventos, no caso do Rui e a apoiar a escola de Surf, no caso da Carmo.

Depois todos aqueles que passaram por esta casa chamada Alfarroba Ideias e Eventos e que acredito foi uma escola para muitos. O Nuno Barroca, o Cajó, o Hermínio, o Queirós, o Pedro Jorge, a Marta, a Ana Patrício, a Catarina, a Maria, o Miguel Bordalo, o André, o Paulo, o Ivo, o Francisco Rivotti, o Nuno Sequeira, o Bruno Braga, o Vasco Spínola,o Diogo Cipriano, a Vânia, o César, o Diogo Soares, o Duarte Burnay, a Cláudia, a Mariana, a Fabiana, o Pedro Neves, o Nuno Costa, a Inês, a Vlada, a Ana, a Rita e tantos outros que colaboraram connosco e nos fizeram melhores. A todos vocês muito obrigado.

Por fim uma palavra para os clientes. Sem vocês este caminho nunca teria sido possível. Obrigado por nos deixarem sonhar. O caminho ainda agora está a começar e vamos voltar a percorrê-lo juntos. Boas ondas!!!

António Pedro de Sá Leal- Lifedreamer

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.