Depois de estarmos num confinamento forçado em grande parte pela falta de preparação para enfrentar o inverno, hoje, dia 9 de fevereiro de 2021 as notícias dão conta que a estratégia será prolongar o confinamento até pelo menos meados de março, um ano depois de termos sido confinados pela primeira vez…

Longe de resolver o problema da pandemia de uma forma estruturada, o prolongamento do confinamento colide de frente com o que deveria ser o objetivo primordial nesta pandemia, que passa por criar condições para que as empresas possam trabalhar, os estudantes frequentar as escolas e universidades e que de alguma forma a economia e a sociedade se possam recompor deste momento.

Ao prolongar o confinamento estamos numa estratégia tão comum nos nossos dias de “empurrar com a barriga”. Vamos com certeza baixar os casos, como aconteceu entre maio e setembro de 2020, para chegarmos a outubro e começarmos a assistir uma vez mais ao crescimento do número de infetados.

Há a vacina na qual se deposita a esperança mas, a avaliar pela falta de capacidade que temos encontrado na sua distribuição equitativa e de acordo com um plano duvido que em setembro estejamos resolvidos com este assunto. Aliás o plano de vacinação COVID 19 ajuda a ilustrar esta falta de estratégia e sobretudo capacidade instalada para, com tempo, quase 9 meses, se estabelecer um plano seguro e coerente que servisse em primeiro lugar as primeiras linhas de combate à doença (médicos, enfermeiros, bombeiros e pessoal auxiliar médico) e posteriormente os mais frágeis — pessoas com mais de 70 anos até chegarmos aos mais preparados para resistir ao vírus. Ao contrário a discussão rapidamente passou para vacinar o poder político, ou abriu espaço para todas as “chico espertisses” que temos vindo a assistir nos últimos anos noutras áreas e que invariavelmente vão passar impunes.

O confinamento resolve um problema momentâneo, tático se quisermos, ao permitir baixar o número de contatos e a pressão sobre o SNS, mas carece de uma estratégia que crie condições para o regresso das pessoas às suas vidas e sobretudo que permita inverter a total destruição da cadeia de valor em Portugal. Quando fechamos um café ou um restaurante não impactamos apenas esse negócio, mas todos os que dependem dele e contribuem para o mesmo, desde a empresa de vende café ao próprio produtor, passando por quem comercializa o açúcar ou a louça para servir um café. E é sobre criar condições que se esperava o poder político estivesse neste momento debruçado.

De alguma forma a confiança na “bazuca” que virá da União Europeia não pode funcionar como um confinamento, tem de ser gerida para ajudar esta cadeia de valor que foi destruída nas mais diversas áreas, desde a cultura, ao turismo passando pelo desporto entre tantas outras. Era bom que a discussão pública se focasse nisto mesmo.

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.

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