E se votássemos numa visão?

A uns dias das eleições europeias e porque acredito que a democracia é o caminho mais justo de governação, mas sei que a classe politica não honra de forma nenhuma a confiança que lhe é depositada pelos cidadãos e que os cidadãos sentem que votar não serve para nada, tendo isso vindo a ser reflectido na crescente abstenção, que abre caminhos perigosos para o futuro, nomeadamente o aparecimento de movimentos radicais, tenho vindo a reflectir longamente de como poderíamos melhorar o nosso sistema de governação de modo a caminharmos numa direcção mais justa e equilibrada, sobretudo para que conseguíssemos reduzir as discrepâncias ao nível social que criam invariavelmente momentos de tensão que ao longo da história do homem culminaram de ruptura muitas vezes em guerras que devastaram regiões inteiras.

Tendo em conta que os políticos eleitos acabam invariavelmente por comprometer os seus programas eleitorais e em muitos casos abandonar os seus eleitores em prol de um cargo melhor enquanto ainda deveriam estar a representar os cidadãos que os elegeram. Defendo que devemos acabar com a classe política. Mas mantemos a democracia.

Focamos-nos no que realmente interessa, ou seja, no programa.

Votamos num plano para os próximos dez anos. Exige um esforço de educação dos cidadãos sobre o que entendem devem ser o caminho nas diferentes áreas para o seu país: educação, saúde, ambiente, forças armadas, legislação, justiça, administração interna, transportes, energia, emprego, segurança social, fiscalidade, cultura, agricultura, oceanos, ordenação do território entre outros.

Devem ser apresentadas ao cidadão as diferentes alternativas e caminhos de uma forma simples e inteligíveis para todos — com o cuidado de interligar o que está interligado — decidir que, se queremos determinada coisa ela condiciona outras noutras áreas.

Não elegemos ninguém. Votamos numa visão — que não é de esquerda ou de direita ou liberal ou conservadora.

Estou seguro de que o processo eleitoral seria mais complexo, mas talvez mais efectivo e claro uma vez que votávamos num plano sabendo quais os seus desafios e constrangimentos, mas também percebendo onde queríamos chegar e sobretudo o que teríamos fazer para chegar lá talvez fosse um bom caminho.

Depois contratamos gestores especializados e reconhecidos para desenvolver estes projectos, da mesma maneira que contratamos um gestor para uma empresa, com objectivos claros, remunerado de acordo com o seu cargo, com liberdade de acção, mas com supervisão rigorosa. E sobretudo gestores que fossem responsabilizados pelos seus actos de gestão.

Qual a diferença entre um político e um gestor? Em primeiro lugar a formação para o desenvolvimento de um projecto — os gestores tem de provar que sabem gerir para manter o seu trabalho, os políticos não têm na maior parte dos casos formação para as áreas onde se envolvem e acabam por ter um largo espectro de assessores que na realidade percebem do assunto, a especialidade dos políticos é em muitos casos a oratória e a disputa partidária com vista a manterem o poder. Em segundo lugar esta coisa estranha dos políticos serem juízes em causa própria — raramente legislam em favor do bem comum como deveria acontecer, mas sempre em benefício próprio. Já o gestor tem como obrigação defender o bem comum pois na maior parte dos casos o seu ordenado depende disso mesmo (podemos aceitar que nem todos os gestores são assim, como nem todos os políticos são como descrevo — mas falo de uma maioria).

É isto para começar a conversa. Ideias? Críticas? Falhas?

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.

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