Entre Dúvidas e Certezas

Passei muito tempo se deveria ou não escrever este texto, sobretudo porque sinto que não tendo a informação toda posso de alguma forma estar a ser injusto.

Em primeiro lugar quero afirmar que mais do que certezas tenho dúvidas.

1. Sendo a primeira delas quais são os pontos de contágio da COVID 19, em Portugal que ajudem a sustentar a decisão de fechar umas coisas e não outras?

Fazia-me sentido que passado quase um ano do primeiro caso de COVID19 em Portugal se tivesse já uma noção exata quais sãos os hotspots de transmissão do vírus, para além do que sabemos de como se transmite — serão os escritórios, os cafés/restaurantes, as lojas de roupa, as livrarias, os ginásios, os campos de golfe ou como todos querem agora as escolas e universidades? Ou serão os desportos ao ar livre? Ou o passeio à beira mar? Sim quantos contágios confirmados há em quem dá um passeio à beira mar? Qual a base científica que abre espaço para o jantar comício, mas fecha os restaurantes, os cafés ou os barbeiros?

Dirão os entendidos que temos de reduzir as cadeias de contágio. Estou perfeitamente de acordo. Quais são? Onde se encontram?

2. A segunda questão que me assalta diariamente, influenciado com certeza pela diarreia dos media, passa por não ser claro para mim quantas camas existem em UCI em Portugal, quantas em enfermaria e quantas em enfermaria Covid19? Onde estão os hospitais montados em março/abril para receber os doentes COVID19?

Segundo os dados da PORDATA existiam em 2019 no total 36.913 Camas em Hospitais públicos ou privados em regime de individual ou enfermaria. (https://www.pordata.pt/DB/Portugal/Ambiente+de+Consulta/Tabela )

por comparação em 1980 existiam 51.268.

Segundo os dados da DGS referentes ao COVID 19 existiam dia 19 de janeiro 5165 internados dos quais 670 em UCI . 13% da capacidade total de camas em 2019. https://covid19.min-saude.pt/ponto-de-situacao-atual-em-portugal/

3. E na sequência desta questão o que é necessário para ativar o recurso aos privados para ou receberem doentes COVID19 ou receberem todos os outros e libertarem espaço nos hospitais públicos?

4. E mais importante é qual a capacidade instalada nos prestadores de saúde — médicos, enfermeiros, auxiliares, emergência médica entre outros. E porque é que desde março de 2020 não há uma gestão racional dos meios e pessoas de modo a garantir uma resposta eficaz aos portugueses? Flexível e atualizada diariamente.

Do que aprendi quando há uma guerra devemos proteger os mais frágeis ( neste caso os doentes crónicos, as pessoas acima de certa idade) e deixarmos os mais fortes ou capazes para combaterem nas diferentes batalhas.

Não faz sentido empurrar os mais frágeis para as batalhas da mesma forma que não faz sentido impedir os que são capazes de contribuírem para o esforço coletivo. O que verifico é que nesta guerra não estamos focados em proteger os mais frágeis como seria a nossa obrigação e dever e por outro lado estamos a impedir que todos os outros possam dar o seu contributo para além de ser estripados das suas liberdades sem qualquer critério científico objetivo e claro. O que me leva a mais uma questão.

5. Será que nos grupos de decisão estão presentes para além de cientistas e políticos especialistas em comportamento humano, social, historiadores, filósofos que possam dar uma visão diferente de gráficos que deixam de fora o comportamento humano? Se calhar até estão.

Por fim compreendendo o medo que cada um possa ter do desconhecido e da doença não posso aceitar a maneira como os jornalistas abordam este tema sem perderem tempo a olhar para os factos e funcionando como reflexo do seu medo e ignorância propagando de uma forma fantasiosa e perigosa os factos. Não é possível numa sociedade que se quer livre não existir uma imprensa capaz de fazer perguntas difíceis, de olhar para a informação que lhe é “vendida” sem se questionar sobre a validade dessa mesma informação.

A única certeza que tenho neste momento acerca deste assunto é que precisamos de uma liderança clara e esclarecida que tome decisões com base em factos e não no calendário eleitoral.

É isto.

Mantenham-se seguros!

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.

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