Escolas de Surf — Proposta de 2012

Em 2012 escrevi este texto, avaliando o crescimento previsível das escolas de surf em Portugal. Reler hoje o texto tem mais sentido que nunca.

“Proposta de Trabalho
Organização Nacional das Escolas de Surf e Surfcamps
V.001 de Outubro de 2012

Nos últimos anos temos assistindo ao crescimento massivo das escolas de surf e surfcamps ao longo da costa portuguesa. Existindo em 2012 165 escolas Federadas e mais 73 clubes de surf, dos quais muitos têm escolas de surf associadas. A estes somam-se pelo menos mais 50 surfcamps de norte a sul do país e ilhas.
Este crescimento massivo não teve correspondência do ponto de vista da organização e legislação desta actividade, levando em muitos locais a momentos de tensão nas praias que em nada beneficiam a actividade. Adicionalmente surgiu igualmente um sem número de pessoas/empresas que funcionam na absoluta ilegalidade sem que nada lhes aconteça, mesmo estando a fugir aos impostos, e sobretudo que de uma forma completamente desleal comprometem o negócio daqueles que cumprem a lei.
Este documento pretende dar um contributo para a solução do problema, apresentado uma ideia que poderá resolver estes problemas e projectar o surf enquanto produto turístico para o futuro.

AS EMPRESAS VS. OS CLUBES
A primeira tarefa a realizar é separar as empresas de Animação Turística e os operadores marítimos turísticos dos clubes de surf que têm escolas de surf.
As empresas estão vocacionadas para o surf de lazer e para o turismo. Os clubes devem estar ligados à vertente desportiva e à competição. Nesse sentido devem ter regras distintas para operar e sobretudo não podem como acontece hoje os clubes darem aulas de lazer e turísticas, como também não podem as empresas associar-se a clubes para darem aulas de surf furtando-se a cumprir as regras que são impostas pelo Turismo de Portugal às empresas de animação Turística e aos operadores marítimo-turisticas.
As empresas deverão cumprir os requisitos do Instituto do Turismo de Portugal, tendo professores de surf certificados pela Federação e a possibilidade de terem instrutores com certificados internacionais. O seu target deve ser a área do Lazer e o turismo. Estão hoje e devem manter-se fora da área da competição.
Os clubes, por seu lado deve caminhar para uma especialização na área desportiva, aproveitando hoje a dinâmica à volta dos Centros de Alto Rendimento e sobretudo das competições nacionais e internacionais que decorrem todos os anos em Portugal. Para garantir que isto acontece os clubes devem ser obrigados a federar todos os seus alunos/atletas e disponibilizar numa base mensal uma lista desses mesmos federados às respectivas autoridades marítimas. Devem ser impedidos de dar aulas de surf de lazer/turísticas, o que hoje não acontece. Caso tenham esse interesse devem cumprir as mesmas regras das empresas. Outro facto que acontece hoje é empresas ligarem-se a clubes para darem aulas de surf e ficarem desse forma fora do universo da legislação ligada ao Turismo, com menos requisitos do ponto de vista legal, menos controle, acabam por fazer dumping de preço, comprometendo desta forma o mercado e o seu desenvolvimento. Isto também deve acabar. As empresas devem ser forçadas a definir uma área de actuação e cumprirem todas as mesmas regras.
Só é possível criar um mercado de qualidade e competitivo se todos os players cumprirem as mesmas regras, caso contrário cria-se uma situação passível de criar desequilíbrios e sobretudo de baixar a qualidade da oferta.

OS DIFERENTES NÍVEIS DE ENSINO
Genericamente podemos identificar hoje três níveis de ensino de surf que correspondem a ocupações da área de praia diferenciadas. São elas:
1. Iniciados — habitualmente estes alunos estão junto da linha de costa com água por vezes pela cintura. São aqueles que mais ocupam a praia pois habitualmente chegam até à areia. Num rácio razoável diremos que cada seis alunos necessitam de uma faixa entre os 16 e os 20 metros. Este grupo de alunos representa a base da pirâmide do universo do surf e serão cerca de 75 % dos alunos das escolas de surf.
2. Intermédios — este grupo representa cerca de 15 a 20% dos alunos das escolas de surf. Ocupam uma área de mar muito próximo da costa mas já fora da beira-mar. Pontualmente poderão ocupar esta zona. O rácio é semelhante ao grupo anterior.
3. Avançados — como o próprio nome indica este grupo que representa 5 a 10 % dos alunos das escolas, não ocupa a beira-mar apenas a zona para lá da rebentação. Aqui o rácio de ocupação da praia não se aplica, uma vez que seis pessoas podem espalhar-se por uma área de 20 a 30 metros ou podem estar todas concentradas numa área de 5 metros. Este grupo de alunos são aqueles que habitualmente deveriam estar associados a clubes.
No que diz respeito à proposta que trago ela deve aplicar-se essencialmente aos dois primeiros níveis, uma vez que são esses que têm uma taxa de ocupação mais efectiva da costa.

AS PRAIAS
A ocupação das praias tem sido um dos principais problemas à criação de uma oferta de qualidade para o surf de Lazer/turístico. Tipicamente por região existe um grupo de praias que permitem a o ensino do surf. Quando as condições estão boas existe a tendência de todos os operadores acabarem por ir para mesma praia. Isso provoca um excesso de carga na praia, aliado a riscos elevados de acidentes e em alguns momentos de tensão que no passado originaram confrontos físicos.
Desta forma deve-se definir quais as praias propícias para o ensino do surf das 183 já identificadas no Portugal Surf Guide e qual a sua carga máxima, tendo em conta a época do ano. Por exemplo, na região de Lisboa o Outono e Inverno são muito bons para a praia de Carcavelos, devido à sua orientação e a primavera e o verão são melhores na Costa da Caparica.
Para o cálculo de carga máxima devemos seguir o critério de quinze a vinte metros por cada seis alunos, estabelecendo à partida uma distância mínima entre operadores de 50 metros.
Em cada praia devem ser marcadas quantas áreas existem e estas devem ser devidamente numeradas, sujeitas inspecções mensais da sua localização, uma vez que, sobretudo nos fundos de areia a zona propícia para o ensino do surf pode mudar.

A PROPOSTA
O sistema que proponho é já utilizado há muitos anos na gestão de equipamentos desportivos. Passa por criar um sistema de ocupação das diversas praias para o ensino do surf.
Este sistema funcionaria sobre uma plataforma online onde todos os operadores registados e validados marcariam as suas aulas em determinada praia. No sistema online apareceria desde logo as horas e praias disponíveis, como se de um horário se tratasse. Os operadores marcariam períodos de hora e meia com um custo de um euro por aluno. Após a validação da disponibilidade e do respectivo pagamento o sistema enviaria um e-mail para a autoridade marítima local que ficaria com a responsabilidade de fiscalizar se as escolas estavam a cumprir os horários e as zonas delimitadas.

As verbas resultantes deste sistema serviriam para cumprir três objectivos:

1. Sustentabilidade do sistema — 50% do valor das reservas serviria para manter o serviço activo e com qualidade ao longo dos anos, sempre com o objectivo de melhorar.
2. Investimento na praia que gera as receitas — 30%, através da criação de um fundo para cada praia que permita ir melhorando as infra-estruturas de apoio aos diversos operadores — pode passar por uma zona de armazenagem, duches, segurança, acessos, limpeza da praia, etc. Isto vai fazer com que as praias com maior carga sejam igualmente aquelas que têm maior investimento e melhores condições.
3. Pagamento de serviços de fiscalização — 20% de modo a garantir que as autoridades marítimas fariam de uma forma eficaz o seu trabalho.
Este sistema pressupunha que os operadores poderiam, desde de que devidamente legalizados, prestar os seus serviços ao longo da costa portuguesa, algo que hoje não acontece devido ao facto de as Capitanias terem de emitir licenças por cada operador, sendo que em alguns casos tem havido algumas situações de proteccionismo exacerbado.
Este sistema pressupunha igualmente que as escolas/surfcamps/clubes teriam prioridade nas reservas dos seus locais habituais. Por exemplo uma escola que tenha estado licenciada nos últimos dois anos pela capitania de Lisboa para determinada praia teria prioridade na reserva para essa mesma praia. Esta prioridade seria dada através de, em determinado momento, em que houvesse mais do que uma reserva para a mesma praia à mesma hora a escola “residente” teria possibilidade sobre as restantes.

VALOR DA PROPOSTA
Para dimensionarmos o que estamos a falar gostávamos de apresentar um pequeno exercício para dimensionar as receitas que podem surgir deste modelo.
Assim se considerarmos que o ano seria dividido em três épocas:
1. Julho/Setembro
2. Outubro/Fevereiro
3. Março/Junho
E que em cada uma destas épocas uma escola de surf terá em média:
1. Julho/Setembro — 24 alunos x 2 aulas por dia x 90 dias x 1 euro por aluno = 4.320 euros
2. Outubro/Fevereiro — 10 alunos x 1 aula por dia x 150 dias x 1 euro por aluno= 1.500 euros
3. Março/Junho — 15 alunos x 1 aula por dia x 90 dias x 1 euro por aluno = 1350 euros

Dará um total de 7.170 euros por escola por ano
Se tivermos em conta que existem 165 escolas de surf registadas em 2012 podemos estar a falar de um valor total de 1.183.050 euros por ano.
Se estivermos a falar de dividir este valor em:
50% Para sustentar o sistema e aperfeiçoá-lo — 591.525 euros/ano
• 30% Para melhorar as infraestruturas das praias — 354.915 euros/ano
• 20% Para a fiscalização por parte das autoridades marítimas -236.610 euros/ano

QUAIS AS VANTAGENS DE IMPLEMENTAÇÃO DESTE SISTEMA

1. Controle efectivo da ocupação das praias.
2. Sistema que se auto-sustenta
3. Liberdade de circulação
4. Reinvestimento das receitas na melhoria das praias
5. Separação entre a vertente desportiva e a vertente turística
6. Identificação clara de todos os operadores no mercado.
7. Harmonização da ocupação das praias

©António Pedro de Sá Leal — Outubro 2012"

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.