Imaginem que descobrem que estão doentes. E que essa doença pode ter cura. Decidem, no entanto, porque não têm tempo, ou não querem, ou ganham mais dinheiro desta forma, não tratar essa doença. Ficam à espera de estar totalmente incapacitados para agirem. E descobrem nessa altura, que talvez seja tarde de mais, que se tivessem tratado mais cedo a doença que ela poderia até ter desaparecido. Agora imaginem que a doença que têm piora em determinado ambiente e que justamente é aquele onde vivem. Isto é o que se passa com os incêndios em Portugal. Deixamos que a doença se alastre até ao limite do razoável e depois procuramos resolver os incêndios e por fim procuramos os culpados.

Desde da revolução industrial que o Homem tem vindo a adaptar o meio ambiente às suas necessidades e caprichos, sem em nenhum momento ter tido a necessidade de prestar contas dessa sua intervenção. Isto provocou duas coisas. A primeira uma total incapacidade de adaptação ao meio ambiente, a segunda a criação de um barril de pólvora pronto a explodir em qualquer momento.

Os incêndios de outubro de 2017 refletem em meu entender isso mesmo. Por um lado, deixamos e deixaremos no futuro que a floresta em Portugal seja deixada ao abandono, não existindo uma responsabilização dos proprietários sobre a plantação e manutenção destes espaços. De outro modo, fruto da modernidade deixamos de necessitar de ir recolher lenha, ou vegetação para animais ás florestas, porque temos aquecedores e hipermercados onde tudo está à mão a um preço muito acessível. Mas para além disto não conseguimos olhar para as alterações climáticas e perceber que elas, de facto tem influência na nossa vida e terão cada vez mais. O futuro, tal como o vejo será feito cada vez mais de fenómenos extremos, como os que assistimos neste inicio de outono. Furacões e chuvas torrenciais de um lado, seca extrema, incêndios do outro. Sobreviveremos se nos soubermos adaptar. Isto significa que um sistema de prevenção de incêndios não pode estar ativo apenas nos meses de junho a setembro, da mesma maneira que a prevenção e assistência balnear não pode estar ativa entre junho e agosto. Hoje, as condições climatéricas devem determinar os meios que temos disponíveis para atuar. Sim é uma dor de cabeça logística e um pesadelo orçamental. De certeza que sim. Mas é a única maneira que vejo podemos defender-nos de uma forma mais eficaz.

Voltando ao inicio, acredito que para além de meios capazes e eficazes de defesa da vida humana e das florestas, os incêndios previnem-se no inverno. Previnem-se quando se planta eucaliptos com regras e não quatro árvores por metro quadrado. Previnem-se quando se abrem corta-fogos largos e extensos que permitam, se necessário fazer contra-fogos. Previnem-se com um corpo de protecção civil profissional e profissionalizante que tenha ao seu dispor, um orçamento estável e um grupo de pessoas com diferentes formações e capacidades que permitam num cenário de catástrofe actuar de uma forma efectiva e eficaz. E sobretudo que tenham a capacidade de utilizar os meios ao dispor para preparar respostas a potenciais cenários de catástrofe. Não é uma tarefa fácil, eu sei. Mas é uma tarefa possível.

A proteção Civil não pode ser um local de nomeação politica, não pode depender do poder politico, o resultado dessa opção está à vista. Nas mãos do governo ficam o sangue de quase 100 pessoas em 2017, sem consequências, sem remorsos.

Imaginem agora o nome de 100 pessoas que são vossas amigas — imaginem que morreram todas este verão/outono. Estranho não é. Primeiro encontrar 100 nomes, depois pensar que desaparecem. Se calhar isto era um bom exercício para os membros do governo.

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.