António Pedro Sá Leal/Ago2017

Vou-lhe chamar José, apesar de esse não ser o seu nome. O José tem 40 anos, vive no distrito de Santarém e é filho de um ex-pide e de uma menina de bem aqui da zona. É injustamente conhecido como o José do pide. É triste. Mas é o Portugal rural do seculo XXI.

O José, que conheço desde que nasceu, estudou e tirou um curso superior em gestão de recursos humanos, apesar do seu sonho de infância ser arqueologia. Por volta da altura da faculdade o seu melhor amigo casou-se e ele foi pela primeira vez convidado para uma festa para além da sua zona de conforto, ou se quiserem para além dos limites do controle do seu pai, ex-pide. Embebedou-se. Já não foi ao casamento. A sua liberdade resumiu-se a essa noite de loucura e perdição onde apenas não encontrou, de bicicleta, o caminho para casa. A partir dessa altura e até à morte do seu pai, viveu como um escravo de trabalho, sujeito a insultos e rebaixamentos. O mundo aqui, a 160 km de Lisboa e a 2 km da autoestrada vivia-se ao sabor das estações, da regra, da poda, da sulfatagem, da apanha, da sementeira entre outras coisas. Não havia tempo para além do dia-a-dia da agricultura.

A última vez que estive com o pai do José, estava a desmontar o trampolim que tinha montado para os miúdos no Verão. Uma hora a desmontar, carregar, arrumar. Um inquérito sobre minha vida, como se ainda estivéssemos no outro tempo em que ter opinião era difícil. Nem uma palavra de precisas de ajuda? Queres que leve isso? Nada.

Morreu o ex-pide. Ficou o filho de 40 anos e a mãe de setenta e muitos sozinhos. Sem farol, nem guia, nem nada. Mas muito dinheiro e muitas terras, que eram dela e da sua família e que tinham sido administradas com mão de ferro pelo seu marido, pai do José.

Sozinho ele descobriu nos últimos anos muitas coisas. A primeira o que era ter dinheiro seu. Que podia ir a Tomar, à loja das bicicletas e comprar aquela bicicleta que sempre quis. A de 2.000 euros, e a camisola a condizer, apesar de já não andar de bicicleta e usar ainda com medo o carro do pai. Que eu estaciono na garagem apertada sempre que estou por perto.

O José, como eu, viveu o drama dos incêndios aqui na zona na semana passada. Ontem cruzei-me com ele e porque estava preocupado perguntei-lhe o que se tinha passado com ele. Ardeu tudo — diz-me — os eucaliptais, os pinheiros, uma vinha abandonada que era do meu bisavô, um olival que o meu pai tinha comprado. E aqui- perguntei-lhe — tens tudo limpo certo? Apesar de saber que o terreno a que chama quintal e circunda como uma península a minha casa, não estava limpo. Aqui…sim…quer dizer. O trator está avariado e não tem arranjo. Mas hoje já fiz um mau negócio, diz-me. Vendi os pinheiros por 500 euros. Estavam queimados e apareceu-me aí um tipo que os comprou. Liguei depois para quem me costuma comprar e disse-me que o pinho valia mais. Fiz um mau negócio.

A conversa, por minha iniciativa foi para o incêndio que saiu de Alvaiázere e já vai em Mação. E os eucaliptais? Estavam limpos? Estranho não existirem corta-fogos. Era preciso um subsidio para limpar as matas, diz-me, vi nas noticias que todos ganham com isto, os tipos dos aviões, os gangues que pegam fogo…a conversa continuou e percebi nesse momento que por muito que falemos de floresta e ordenamento florestal, temos ainda um longo caminho a percorrer para chegar às pessoas, como o José, que viveram noutra realidade durante demasiado tempo e não estão prontas para irem para além do que sempre fizeram. Falta-nos aqui um momento que vai para além do cadastro das florestas, ou de plantar um eucaliptal. Falta-nos eliminar os oportunistas que vivem da desgraça dos outros, falta-nos tratar de nós e dos nossos antes de acontecerem as desgraças. Sinto que vivo longe desta realidade que está a hora e meia de mim num país minúsculo.

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.