O Político, os Incêndios e a Natureza

Este ano um político, veio mostrar de uma forma simples que nada do que defendia em relação à cidade de Lisboa tinha sentido. Veio, em meu entender também mostrar que há negócio para fazer em Lisboa. O que não conseguiu foi mostrar como se podia distanciar do que atacava e aproximar-se do que defendia, sobretudo porque fez o mesmo do que aqueles que criticava, tendo, não aproveitou essa oportunidade única de mostrar que é possível ganhar dinheiro e ser socialmente responsável. Este negócio expôs a fragilidade do Estado que, com diamantes em bruto, faz maus negócios, sobretudo acredito que vítima de excesso de burocracia, de partidarização, e como consequência de falta de massa humana de qualidade para desenvolver negócios que sejam proveitosos para o país. Caso contrário um prédio degradado em Lisboa teria sido recuperado e vendido pelo Estado que vítima desta lógica de falta de visão económica, torna-se despesista e sobretudo displicente em relação aos seus próprios bens. Este acontecimento é transversal a outras áreas da gestão do estado e é disso que quero falar.

Área Ardida Portugal 2017 pic: Antonio Pedro

Este ano voltei ao meu paraíso no interior de Portugal, este paraíso que tinha ardido sem oposição no Verão quente de 2017, para descobrir que…vai voltar a arder no próximo Verão quente. Neste sentido fico surpreendido por ver as discussões em torno dos incêndios em Portugal ancoradas em tipologia de árvores, competência dos meios de socorro e gestão florestal. É como discutir o sexo dos anjos!

Tenho para mim que o problema principal se prende com a gestão florestal, que resulta do abandono das zonas rurais por um lado e por outro pela modernização destas mesmas zonas, que fizeram com que as populações deixassem de necessitar da floresta e de ir à lenha porque compram aquecedores para as suas casas, por exemplo. Mas também pelo facto de a floresta ser uma manta de retalhos entre milhares de proprietários que por si só não têm capacidade nem interesse em tratar e explorar a floresta, porque objetivamente isso representa mais custos do que proveitos e por essa razão vemos que existem uma série de pessoas/empresas ligadas à madeira que compram e vendem, mas não gerem a floresta, pelo que quando arde o negócio continua a funcionar — às vezes com mais proveitos outras com menos.

pic Antonio Pedro

Longe de mim discutir soluções técnicas para resolver este assunto do qual não percebo para além do que acabei de escrever e mesmo assim posso sempre estar errado. O que vejo também é que existe à escala global um mercado da madeira que tal como outro mercado qualquer funciona e é lucrativo para os que o exploram de uma forma profissional. Existe procura e oferta, existem empresas que se dedicam a esta área, que são internacionais e que gerem grandes áreas do planeta, com o objectivo de rentabilizar o seu negócio. Isto significa que, para além do negócio, gerem igualmente a floresta de modo a que o seu negócio não seja prejudicado — um bocado como acontece com a indústria do papel em Portugal onde as áreas ardidas são menores e muito mais controladas. Acredito que podíamos encontrar um modelo que permitisse a gestão da floresta — de toda a floresta — e a distribuição de rendimentos por todos os pequenos proprietários.

Seria uma concessão gerida por profissionais do sector com obrigações do ponto de vista da sustentabilidade da biodiversidade, da defesa da floresta e com uma abordagem económica efectiva. Penso que o Estado devia abrir um concurso à escala global para oferecer esta exploração a quem realmente percebe do assunto e sobretudo sabe ganhar dinheiro desta forma. Mas como é que um proprietário quer/entra neste modelo? De uma forma simples — é convidado a isso — ou cumpre regras claras no seu bocado de floresta ou tem de ceder a área para exploração, ganha dinheiro e ao mesmo tempo protege-se a si e ao seu pedaço de floresta.

Esta lição aprendi com o tal político. Há negócio e quem gere um negócio não o faz para perder dinheiro. Precisaríamos de ter um caderno de encargos com regras claras e é sobre isso que devia ser a discussão em torno dos incêndios em Portugal e não acerca do eucalipto ou do pinheiro ou dos bombeiros até porque no fim a natureza vence sempre.

Eucaliptal a crescer após incendio — sem regras 2018 pic: Antonio Pedro

Com as alterações climáticas e o consequente desequilíbrio no ambiente vamos assistir nos próximos tempos a fenómenos extremos de muita pluviosidade vs seca extrema e ao contrário do que possamos pensar os únicos que vão sofrer somos nós, a raça Humana. As árvores e a floresta crescem de novo, as nossas casas e as nossas vidas nem por isso.

pic: Antonio Pedro

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.