Não gosto de obras. Reconheço a sua necessidade e utilidade, quer para manter determinada estrutura, seja uma casa, uma estrada ou um monumento, mas mesmo assim as obras trazem sempre um incomodo que só nos ultrapassa quando o resultado nos mostra que houve uma melhoria.

A última obra que fiz em casa implicou transformar duas casas de banho e como estive durante o período todo das obras a viver em casa, organizei estas obras de modo a causar um impacto mínimo na vida da minha família e dos meus vizinhos, que no fim do dia não iam ter duas casas de banho renovadas, apenas sofriam com o barulho e com o elevador mais sujo ao longo do dia.

A cidade de Lisboa sofreu, na ultima parte da legislatura do atual executivo, obras intensas e extensas. Numa cidade antiga como Lisboa, que se está a abrir para um novo mercado, o do turismo, mas também que se quer afirmar como uma cidade mais “verde” e moderna, tem sentido ir fazendo obras estruturais.

Aquilo que nestas obras de Lisboa me parece esquizofrénico são essencialmente duas coisas.

A primeira a loucura completa de fazer obras em simultâneo em determinado espaço e não o fazer de uma forma estruturada e faseada. No local onde vivo, em São Domingos de Benfica as obras começaram outubro do ano passado e ainda não terminaram. E sempre na lógica de primeiro partimos tudo, tiramos estacionamentos, condicionamos o acesso pedonal a determinadas ruas, e fechamos o transito e logo depois começamos a construir. Tudo isto seria aceitável na minha perspetiva se de facto com as obras tirássemos também os cidadãos das cidades. Mas não. Continuamos a viver na nossa casa, a ter de ir trabalhar todos os dias, a circular a pé com os nossos filhos e com os nossos pais e avós. E por isso fechar uma determinada zona para obras como aconteceu este último ano é inaceitável e demonstra falta de capacidade de gestão autárquica por parte daqueles que gerem a cidade de Lisboa.

O segundo sintoma de esquizofrenia destas obras é o facto de as obras serem todas feitas num espaço de 24 meses e sobretudo no período que antecede umas eleições autárquicas. Percebo o oportunismo politico e a chica espertisse de ter tudo a pronto antes das eleições, dá aquela sensação de que somos muito competentes e mudamos a cidade para melhor. Claro que uma boa parte destas obras feitas com este carácter eleitoralista vão esbarrar, após eleições, em problemas não detetados, obras malfeitas e mal pensadas e em constrangimentos para os cidadãos. Aqui onde vivo, e desculpem insistir, mas é uma realidade que conheço melhor, decidiu-se que um parque de estacionamento debaixo de um viaduto necessitava de ter mais dignidade. E nesse sentido acabou-se com metade do estacionamento para construir uma fonte onde é suposto as pessoas puderem banhar-se no verão, assumo que a inauguração vai ser um banho coletivo com o atual presidente da camara e o presidente da junta de São Domingos de Benfica de calção. Não se sabe como posteriormente se vai pagar o custo de manutenção e os custos inerentes à utilização de água, num país que está em seca e num planeta que está à beira de uma crise ambiental em larga escala. Depois temos o estacionamento que ficou — a outra metade — sem passagem para os peões. Simplesmente não se contemplou que as pessoas, que por acaso vivem aqui, necessitam de atravessar o mesmo e para isso era bom que nesta obra estrutural de melhoria para os “cidadãos” se tivesse em conta que a população mais envelhecida utiliza desde sempre — quando ainda isto eram quintas o caminho mais a norte para se deslocar. Claro que antes de dia 1 de outubro tudo vai estar lindo e maravilhoso, mas depois de dia 1 de Outubro as pessoas continuam a viver aqui. Seria pedir muito que houvesse menos politiquice na decisão e mais respeito pelos cidadãos?

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.

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