Em meados de Março, resultado de uma quarta-feira louca em Carcavelos e com o pânico do COVID 19 a instalar-se, fomos empurrados para fora do mar. Primeiro, não podíamos ser mais do que cinco e depois mais do que dois. Eventualmente o pânico levou a melhor e, de não podendo ser mais que dois, as praias foram fechadas e o acesso ao surf também. Vimos surgir nesse momento dois movimentos, um maioritário que entendeu que vive num estado de direito que declarou emergência e por isso manteve-se fora das ondas e do surf e outro muito pequeno, que decidiu utilizar o seu direito de liberdade de consciência e decidiu ir surfar na mesma.

Surgiu também, com o segundo movimento, um grupo de ódio e violência — frequente em estados autoritários — que denunciou, ameaçou e expôs aqueles que foram surfar, de uma forma sistemática e efectiva. Para mim, enquanto surfista, foi confrangedor. Os que foram surfar e os que os denunciaram. Lamento ter assistido a isso.

Agora, que juntos conseguimos achatar a curva da epidemia, é tempo de preparar o regresso ao mar e ao surf. Há vários movimentos em curso nesse sentido, todos com um único objetivo, mas com agendas e prioridades diferentes.

Em primeiro lugar, temos os negócios ligados ao ensino e experiência do surf que perderam numa semana a maior parte da sua faturação — para não dizer a totalidade — e ficaram reféns dos layoff’s e das dívidas que contraíram acreditando no seu negócio. Para estes, o desafio é o maior de todos. Não lhes basta abrir o seu negócio e poder ir dar aulas de surf: é fundamental garantirem que os seus clientes estão seguros e sobretudo que os seus clientes percepcionem isso mesmo. Para isso, o caminho tem de ser consistente, estruturado e sobretudo sério. É necessário garantir que se criam as condições certas para receber os clientes, que se calhar vai receber menos clientes, que se tem de lavar os fatos mais vezes, que tem de se ter uma solução para limpar as pranchas, que é fundamental jogar no distanciamento social fora de água e ter medidas de protecção dentro. O risco de começar cedo demais, sem a devida preparação, pode matar as escolas de surf. Todas as escolas de surf. Este é o momento de valorizar as aulas de surf, valorizar os clientes. Não é o momento de baixar o preço e dar aulas a todo o custo.

Em segundo lugar temos os praticantes, essa comunidade que se estima em 200.000 surfistas e que preenche diariamente os diferentes picos de surf do país. De Faro a Moledo há um surfista que sonha em apanhar umas ondas amanhã. O desafio para estes é serem como a maioria que ficou em casa e que agora tem que saber estar na água, que não pode invadir picos de uma forma desregulada, que consegue manter o distanciamento social. É fácil.

O surf, ao contrário do que se possa pensar, é um desporto individual. Vamos tipicamente sozinhos para a praia, vestimo-nos longe dos outros, remamos para o mesmo pico, mas mantemo-nos afastados, não apertamos as mãos e sobretudo não apanhamos a mesma onda (a maior parte das vezes, de qualquer das maneiras). Conversamos ao longe ou estamos calados. Estamos lá para surfar. Para apanhar a nossa onda. Claro que podemos em algum momento parecer muitos no mesmo sítio, mas se olharem com atenção estamos afastados.

Como o governo vai olhar para nós neste momento vai depender de cada um e de todos e sobretudo na nossa capacidade de, enquanto grupo, nos soubermos comportar a abertura das ondas. Mas vai depender também da Federação Portuguesa de Surf, que tem o papel de liderar junto das entidades competentes o processo de abertura das ondas para todos os seus stakeholders .

Para isso precisamos de estar juntos, porque amanhã, como tu, quero ir surfar.

Boas ondas…brevemente!

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.