Cresci num ambiente de leitura. Os livros enchiam as estantes, as mesinhas de cabeceira e as malas de viagem. O meu pai era um leitor ávido e a minha mãe, para além de ler, também escrevia. Aprendi desde muito cedo a tirar prazer da leitura e do momento de imaginar com a ajuda das palavras um mundo desconhecido, excitante, misterioso, triste, feliz e surpreendente. Ler tornou-me uma pessoa mais tolerante e quero acreditar generosa e disponível para aprender.

Mantenho hoje um hábito de leitura diário e procuro incutir nos meus filhos este gosto.

O livro é promotor de cultura de ciência, de aprendizagem e sobretudo de liberdade. Quando temos acesso aos livros temos acesso a outra visão do mundo somos desafiados nas nossas crenças e descobrimos outras perspetivas e verdades. O poder da palavra escrita é talvez o maior que existe. O livro tem sido um pilar da civilização desde sempre.

Por isso também me tornei escritor, primeiro na minha área profissional ligada ao surf e mais recentemente aventurando-me na ficção. Para mim escrever tornou-se um reflexo de ler e do que a leitura me trouxe e traz.

Ao longo da história o livro foi atacado em diversos momentos sempre por aqueles que queriam limitar a liberdade, o pensamento livre, pelos que queriam diminuir outras culturas e outras crenças, todos temos presente a queima de livros promovida pela Alemanha Nazi, ou mesmo a limitação de certos livros em Portugal no período da ditadura do Estado Novo.

É por isso surpreendente que num dos momentos mais críticos para a humanidade dos últimos cinquenta anos que o estado português tenha diminuído o livro, lhe tenha tirado o caracter de bem essencial, impedido a sua venda e fechando as portas ao seu acesso. É sobretudo chocante quando o Presidente da República é um conhecido leitor compulsivo e foi no passado um promotor do livro. Não se percebe. Não se percebe porque é que num momento em que precisamos de lucidez esbarramos uma e outra vez em decisões vazias de racionalidade e de coerência.

É urgente quem gere os destinos do meu país tirar a cabeça do funil e passar a olhar para o panorama geral. Perceber que temos de ter a coragem de olhar para além do pânico e do medo. Que as decisões têm de ser cada vez mais tomadas com dados concretos e objetivos.

Espero sinceramente que o livro seja de novo colocado no seu lugar e que se perceba que nem todos compramos online, nem todos temos o mesmo acesso e que mesmo aqueles que compram livros nos supermercados merecem a possibilidade de ler, de sonhar e de imaginar um mundo para além daquele em que vivem.

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.

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