Os dias passam sem que ninguém fale em soluções. Dois temas invadem as paragonas noticiosas. O vírus e a crise.

Capsula do Tempo — texto escrito em Março de 2020

A oportunidade está aí.

O vírus trouxe-nos o abandono do nosso dia a dia de trabalho e lazer, fomos fechados a uma distância segura uns dos outros. Corremos para casa, fechamos-nos e começamos a olhar pela janela à procura daquele que saía de casa. Tornamos-nos denunciantes dos outros. Alimentámos uma cultura de violência nas redes sociais assente no medo e na ignorância. Quando alguém sai à rua põe-se em risco a si próprio. E aos outros dirão. Sim, mas apenas aqueles que andam na rua. Se estamos em casa, distantes socialmente estamos seguros. O ato de sair afeta o que sai, não o que está em casa. Mas vão entupir os hospitais. Claro que sim. Mas quem está em casa está protegido. Mas divago sobre o que queria escrever. Abandonámos dizia eu o nosso dia a dia de trabalho e lazer.

Houve quem fechasse o seu negócio sem necessitar e quem fechasse porque tinha de fechar e depois houve os que arriscaram pelos outros. Os serviços básicos, os prestadores de saúde, os transportadores, os funcionários dos supermercados, as pessoas da limpeza, os policias, os estafetas de entrega de comida e os que entregam encomendas e com certeza tantos outros que olharam para o vírus de frente e decidiram enfrentá-lo. Muitos porque não tiveram outra solução outros tantos porque sentiram que essa era a sua missão, mesmo aqueles que não me refiro e se prontificaram para ajudar os vizinhos e os familiares mais debilitados. A economia retraiu o que seria de esperar. E lá vem a crise. Mas não precisava de ser assim.

Podíamos ter estado em casa a preparar estratégias para o regresso à normalidade. Sim, mas estávamos em casa e encontrar uma solução dizia respeito aos políticos. Queremos dinheiro e não soluções. E por isso ficamos à espera porque “vai ficar tudo bem”. Só que não!

Diz respeito a cada um contribuir para melhorarmos a nossa vida. Olhar pela janela e criticar é fácil. Olhar pela janela e procurar soluções é mais difícil. Apresentar e discutir ideias numa cultura de violência, isso então é praticamente impossível.

Mas “praticamente” ainda deixa um espaço de liberdade. E devemos utiliza-lo para encontrar soluções. Soluções para regressar à normalidade. Do uso de máscaras, à redução de pessoas nos locais de grande consumo. Precisamos de espaço. Precisamos de gerir o espaço e a sua ocupação. Precisamos de ter soluções mais equilibradas do ponto de vista ambiental. Precisamos de povoar o país dando condições a quem quer mudar ter uma vida melhor do que na cidade. Precisamos aprender a viver e trabalhar à distância. Viajar para uma reunião deixou de ter sentido. Filas para entrar no mosteiro dos Jerónimos também. Sim vão existir menos turistas e menos lojas e menos Tuck-Tucks. Mas esta é também a oportunidade de qualificar a oferta. Eu, turista vou viajar para locais seguros, onde reconheça a capacidade de ter espaço e distanciamento e controle sobre o que se passa à minha volta.

Será que temos a capacidade de mostrar isso, como mostramos a capacidade de estar em casa? Será que precisamos de máscaras cirúrgicas importadas da china para ir ao supermercado? Será que precisamos de ir aos molhos para os festivais de verão? Será que conseguimos dar uma aula de ginásio sem que o espaço esteja sobrelotado? Será que conseguimos ir para a praia sem sobrecarregar o espaço e o mar? Será que conseguimos viajar para fora a um preço justo e com segurança? Há com certeza muitas mais questões em aberto e é sobre elas que precisamos de reflectir. É sobre estas e outras questões que os empresários devem investir o seu tempo. Sim há um vírus e uma crise.

É uma oportunidade. De parar, de mudar, de melhorar. Este é o meu desafio diário desde Fevereiro. Como consigo adaptar-me, melhorar? Como posso contribuir com ideias e soluções? Não, não estou em casa. Estou a trabalhar todos os dias. Gerindo o risco do meu dia a dia com as informações que tenho. Ser parte da solução é o meu convite. Vamos lá?

António Pedro de Sá Leal was born in 1971 in Lisbon, graduated in Philosophy at Universidade Nova de Lisboa.

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